PONTO DE VISTA DO BATISTA

Torresmo debaixo do angu

Todos os dias e por toda parte, tragédias acontecem, marcam curso de vidas e determinam o fim de outras, conforme o torvelinho da realidade no cenário deste mundo. E no campo da violência, nem as crianças escapam como vítimas inocentes da bestialidade humana, face que se contrapõe à angelical, fazendo quase crer que duas espécies distintas existem sob a mesma forma.

Foi na noite de vinte e nove de março último que o país se comoveu com o drama, do qual garotinha ainda nos seu cinco anos saiu para o outro lado da vida. Seu corpo estatelado no chão, caído ou lançado da janela do apartamento de seu pai no sexto andar de prédio residencial, ainda recebeu cuidados para que continuasse com vida, mas foi vã a tentativa.

Diante das primeiras informações sobre a tragédia, poucos não foram os que, pensando como polícia, apontaram a autoria do crime no seio da família da vítima. E esse grupo cresceu quando o casal (pai e madrasta de vítima) foi preso como maior suspeito e a mídia elegeu o caso como favorito. Durante cerca de sessenta dias, o público foi bombardeado continuamente com informações, relatos e conjecturas relativas ao caso, sempre na direção do casal como principal suspeito de homicídio contra a filha/enteada. Ao público que acompanhava o desenrolar dos fatos com ansiedade, as evidências contra pai/madrasta, fortes demais, não deixavam alternativa, ainda que persistente a alegação de inocência por parte dos acusados. Presos, pai e madrasta continuaram a negar autoria do crime e a negativa se manteve em juízo.

É aqui que as dúvidas começam a pipocar na cabeça dos talvez primeiros a desconfiar do casal, tão logo informados das circunstâncias em que se deu o crime.

Resistir às pressões psicológicas no curso de interrogatórios e em ambiente prisional, ainda que descartada a tortura física, não é façanha para cidadão comum não treinado para isso, e muito menos para marido e mulher, supostamente comparsas do mesmo crime. Pode-se dizer humanamente impossível a pessoas comuns tal resistência depois de alguns dias, considerando-se ainda a pressão popular alimentada pela mídia. Em casos de dupla autoria, quando não confessado o crime, a tendência é de um acusar o outro, o que não aconteceu entre o casal. Se isso não bastasse, a defesa ainda contratou os serviços de notório legista alagoano, competente e, por vezes, polêmico, em razão da altivez na defesa de suas conclusões técnicas, e mais ainda os de perita criminal, da Bahia, não menos altiva que o legista. Coube à dupla proceder a investigação paralela, na tentativa de provar o contrário ao apontado no relatório pericial da polícia. Ora, em sã consciência, a profissionais qualificados ninguém delega investigação paralela se, de fato, é culpado do crime investigado!Legista e perita criticaram e apontaram falhas nas investigações, chegando a perita a dizer que, além do resultado absurdo, o relatório apresentava até erros de redação.

Ao invés de contra-argumentar aqueles profissionais com fundamentos técnicos, os peritos paulistas partiram para a agressão verbal, pessoal, e ameaças de processo, chegando a dizer que eles teriam sido contratados para desmoralizá-los. A reação foi pura picuinha a extravasar despeito contra quem ousara contestar o trabalho de suas augustas autoridades!

Estavam nesse pé os estremecimentos de parte a parte, quando se descobriu o envolvimento de oficial da Polícia Militar paulista em rede de pedofilia. E não era oficial qualquer, pois havia comandado ação de varredura no prédio, logo após o crime contra a garotinha. No dia trinta de maio, sessenta dias após a tragédia, ao se ver descoberto e na iminência de ser preso, matou-se com um tiro na cabeça. Antes que fosse investigado, o caso do tenente foi dado como isolado e sem qualquer relação com o da menina lançada da janela. "Coincidentemente" e de repente, desde então a mídia deixou o caso de lado.

Com tantas interrogações soltas, desconfia-se que debaixo desse angu há torresmo, se não um "tués" inteiro à pururuca!

nbatista@uai.com.br

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