Tragédia real vista em sonho
Recentemente, o bate-papo
mantido com um amigo, por uma dessas derivações sem qualquer sentido
com o tema inicial, descambou para sonhos e, como não podia deixar de
ser, surgiu a questão do porquê, se significam ou dizem alguma coisa.
Ele criticava crendices e apontava sua exploração por meio de certa
literatura em torno dos sonhos, como se fossem eles fenômeno igual para
todos, passível de interpretação por meio de ícones
pré-estabelecidos numa tabela. Em sua opinião, os sonhos não dizem
nada e seriam respostas aleatórias, destituídas de qualquer sentido
para a vida prática, a indagações alojadas no subconsciente do
indivíduo. Com a primeira parte do seu discurso mostrei minha
concordância, acrescentando que penso ser a interpretação uma
questão íntima, ou seja, somente o sonhador teria condições de
interpretar seus sonhos. Quanto à segunda tive de discordar com base em
diversas experiências vividas por mim em relação a sonhos. Além dos
premonitórios, nos quais fatos por acontecer são mostrados por meios
de símbolos pessoais – e aí está o porquê de a interpretação
caber unicamente ao sonhador – em várias ocasiões recebi, por meio
de sonhos, a impressão de fatos no momento em que aconteciam. Na
oportunidade relatei ao amigo um dos mais impressionantes sonhos por mim
vivenciados, confirmado pouco depois pela trágica realidade.
No sonho, eram mais ou menos
22 horas e eu me despedia de um amigo à porta de sua casa ao lado da
igreja de Nossa Senhora das Mercês, em Cachoeira do Campo. De repente,
sob um céu totalmente estrelado, ouvi algo como trovão bem próximo e,
logo em seguida, tive a atenção voltada para apavorante clarão na
região do atual Residencial Sacramento. Do solo, entre raios e
estouros, brotava um jato de fogo que depois caia em arco e corria pela
encosta e Rua São Francisco. Apressei o passo pela Rua 7 de Setembro e
alcancei o início da ladeira Pe. Afonso, por onde pensava descer e
chegar até onde morava àquela época, no início da Rua São
Francisco. Mas, pela Pe. Afonso não pude descer, porque até à metade
estava tomada de lama, pedras reviradas, e muita fumaça. Desci então
pelo beco, chegando até a frente da Farmácia Bastos. Com muita
dificuldade alcancei a Praça Coronel Ramos, onde percebi a extensão da
tragédia. Cadáveres havia muitos, amontoados e esmagados por pedras e
lama ou mergulhados na água, em alguns pontos gelada e em outros tão
quente, que se sentia o calor de longe. As casas estavam encravadas
naquela massa disforme até á metade das paredes, e, os poucos
sobreviventes, paralisados diante do quadro dantesco. Cruzei a rodovia e
constatei que o lado esquerdo no início da minha rua havia escapado à
avalanche. Nesse momento acordei.
Ao contrário de outros
sonhos, dos quais poucos se lembra ao acordar, as imagens daquele
ficaram bem guardadas e me pareciam tão reais que quase saí para
conferir. Conforme hábito mantido com referência a sonhos fora do
comum, fiz o relato, com detalhes, à minha mulher, no momento em que me
levantava. Faço isso sempre, para o caso de a realidade dizer sim ao
sonho. Pouco depois, quando acabava de tomar o café e a Lourdinha
arrumava o quarto, ouvi dela a exclamação: - seu sonho no rádio! –
À medida que o locutor descrevia as conseqüências de uma erupção
vulcânica ocorrida naquela noite, recordava-me das cenas sonhadas, que
pareciam ser as mesmas narradas no noticiário. Era a manhã do dia 14
de novembro de 1985 e o vulcão, chamado Nevado Del Ruiz, destruíra a
cidade de Armero, na Colômbia, matando cerca de vinte e três mil dos
seus vinte e oito mil habitantes. Coincidências? Ou teria razão
Shakespeare quando disse que "há
mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã
filosofia!"