PONTO DE VISTA DO BATISTA

Tramoia eleitoreira?

Há menos de dois meses, foi abordado neste espaço a questão da violência, criminalidade, e seu combate pelo estado legal, por meio de suas forças de segurança. A abertura do texto dizia que quando há vontade política, tudo se resolve. Aparam-se arestas entre interessados na solução, filtram-se as melhores opiniões e sugestões com vistas à montagem de planos de ação, cuja execução deve estar a cargo dos que conhecem o assunto; profissionais treinados, disciplinados, dentro de estruturas com o mínimo de organização. É assim que se conduz o combate ao crime, especialmente o narcotráfico, nos morros e favelas do Rio de Janeiro, cujas populações, há muito tempo, se tornaram reféns do crime organizado, mediante táticas de intimidação, terrorismo e assistencialismo bandido em lugar da política social de estado. Era muito bom para ser verdade!

E há que torcer para que o otimismo, estampado naquele texto, não dê lugar ao estupor, pois surgem denúncias de que a ocupação das favelas pelas Unidades de Polícia Pacificadora não passa de tramoia bem urdida entre governador do Estado do Rio e os traficantes de drogas. A princípio, o assunto foi levantado no www.tribunadaimprensa.com.br  e, recentemente, outros jornais denunciam atividades de traficantes nas mesmas comunidades, teoricamente, controladas pelas UPPs. De acordo com as primeiras denúncias, teria havido "acordo" entre o governador do Estado do Rio de Janeiro e os traficantes mediante as seguintes cláusulas: 1 – Os traficantes somem com as armas da favela, com os "soldados" de máscaras ninjas, com os olheiros e tudo o mais. 2 – A PM entra na favela, sem enfrentar resistência, ocupa os pontos que bem entender, mas não invade nenhuma casa, nenhum barraco, e não prende ninguém, pois não "acha" traficantes ou criminosos. 3 – A favela é tida como "pacificada", não existem mais marginais circulando armados, os moradores não sofrem mais intimidações, não há mais balas perdidas. 4 – Em compensação, o tráfico fica liberado, desde que feito discretamente, sem muita movimentação.

É difícil de acreditar, causa indignação e induz o cidadão a não mais levar a sério a autoridade constituída, eleita para administrar e defender os interesses públicos, tudo de conformidade com a lei. E em conformidade com a lei, não se admitem acordos, conchavos, convênios, aquiescências junto ao mundo marginal ou à criminalidade. Indivíduo investido de autoridade, que assim procede, é tanto bandido quanto aquele a quem protege.

Acredita-se que, sendo candidato não bem cotado à reeleição, tenha armado esse "acordo" para fazer crer ao eleitorado que ele conseguiu o que se acreditava impossível. Com a queda da violência, nas favelas "ocupadas", o governador surgiria como "salvador da pátria" pronto para amealhar, nas urnas, votos de gratidão do eleitorado "beneficiado". Não se descarta, entretanto, que pressões externas relacionadas com a Copa 2014 e Olimpíadas 2016 tenham influenciado o tal "acordo" (se é que assim pode ser chamado), mesmo porque seria válvula de escape a possível acusação de manobra para fins de reeleição. Fica na cabeça do eleitor a pergunta: são verdadeiras as denúncias? E não somente na cabeça de quem vota no estado do Rio de Janeiro, porque do ponto de vista político e moral interessa a todos os cidadãos em qualquer parte do território nacional. O fato de o tráfico ter continuidade, nas chamadas áreas ocupadas pelas UPPs, conforme reportagem de grande jornal, parecem se confirmar como verdadeiras as denúncias. De acordo com a mesma reportagem, o pessoal do tráfico não mais é visto com armas e as comunidades vivem mais tranquilas. Todavia, o tráfico continua solto, até sob a forma de "feiras".

O assunto é sério e merece investigação, pois não se admite autoridade de mãos dadas com o crime. Se verdadeiras as denúncias, que ele seja cassado e tenha os direitos políticos suspensos. Entretanto, o sistema favorece esse estado de coisas, e, é mais certo que os cidadãos tenham que ir às urnas com mais essa "minhoquinha" na cabeça: verdade ou não? O eleitor não tem opção fora do "prato feito" apresentado pelos partidos, e, se essa "iguaria" suspeita não for investigada e retirada a tempo, caso se confirmem as denúncias, o organismo público corre o risco de continuar se envenenando ainda mais. Até quando a sociedade brasileira terá de conviver com esse estado de coisas?

nbatista@uai.com.br

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