Por enquanto, nada está
definido, pois ainda não chegou a hora da definição, embora haja os
que se sentem candidatos e até eleitos, talvez porque os mesmos
vícios de sempre, arraigados na cultura política deste país, fazem o
caminho das urnas. De quatro em quatro anos, repete-se o canto da
sereia, e, também de quatro em quatro anos o povo cai no engodo, não
recebendo quase nada do prometido, porque do tempo
político-partidário pouco sobra para a Política da realização do
bem-estar coletivo, preocupando-se mais os detentores de votos com a
própria imagem e continuidade no poder. A cada período eleitoral
grande contingente de novos eleitores vem se juntar à massa,
manipulada de acordo com a minoria dominante dos quadros
partidários. E assim como os veteranos o fizeram um dia, os novos
eleitores assumem posição de sustentáculo de algo que não passa de
simulacro de democracia, engendrado pelo sistema partidário
simplesmente distante do pensamento da sociedade brasileira.
Partido político no Brasil
é como cometa: pequeno núcleo formado por seus caciques. A cauda
(afiliados) que o acompanha é apenas poeira que ganha maior ou menor
visibilidade, de acordo com as circunstâncias em relação ao sol
(quem é governo) mas sem consistência e qualquer valor que a
identifique com o núcleo. A não identificação com o partido (núcleo)
permite a qualquer eleito trocar de sigla ou ficar sem ela durante
todo o mandato, sem que nada lhe aconteça. O partido é, então,
apenas meio ou espécie de trampolim, indispensável e obrigatório, de
onde se lança para a aventura política. Sem aval partidário ninguém
se candidata, mas candidato eleito pode mandar às favas o partido,
livre de qualquer explicação aos que o elegeram. Por essa razão,
eleitores, mesmo filiados a uma legenda, também a ela não se prendem
na hora do voto obrigatório, havendo os que preferem fazer sua
escolha por empatia, por reconhecimento ou troca de favores, por
simples recomendação de terceiros ou – supremo ultraje à cidadania –
em troca de bugigangas, passando por valores em dinheiro!
Se consciente do seu
papel, ao eleitor não resta senão ciscar no prato feito e escolher o
que menos lhe desagrada o paladar, porque os candidatos são
previamente escolhidos de acordo com as circunstâncias e interesses
dos caciques. Todos sabem que o eleitor brasileiro vota em candidato
e não em partido! Para os "donos" do partido o melhor candidato não
é o cidadão politizado e idealista. É o "bom de voto", porém
submisso ao "padrinho político". Manipulado de um lado e sem opção
de outro, ao eleitorado não a cabe a culpa que tentam lhe impingir
quando dizem "o povo tem o governo que merece". Também já disse isso
e hoje me penitencio!
Em vista da inutilidade do
partido no que toca à prática da democracia, imprescindível na
candidatura e supérfluo depois da posse, servindo apenas aos
interesses da minoria que o controla, melhor seria que partido não
houvesse, abrindo a participação no processo eleitoral a todos os
cidadãos, desde a seleção dos candidatos por meio de assembléias
locais. Dirão que nenhuma democracia existente funciona sem o
pluralismo partidário, mas é bom lembrar que ela surgiu sem partido,
pelo menos formal, separador de grupo dentro da sociedade. Sem
partidos políticos, ao povo seria dada maior participação, livre e
espontânea, em todo o processo eleitoral; as discussões nos
parlamentos passariam a ser unicamente em torno de idéias e
projetos, pois não haveria interesses partidários; e o executivo (em
todos os níveis) se libertaria da necessidade da maioria nos
parlamentos.
O poder de cassar mandatos
seria dado ao eleitorado, prevenindo-se assim o povo contra
governantes e parlamentares, inescrupulosos, corruptos, ineptos ou
relapsos. Com esse recurso nas mãos do povo grande parte de
aventureiros políticos deixaria de entrar no processo eleitoral e os
eleitos cuidariam de corresponder aos anseios coletivos depositados
com os votos nas urnas. E o povo estaria também resguardado contra a
mutreta das obras realizadas no último ano do mandato com vistas à
reeleição do governante ou eleição de seu sucessor.