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PONTO DE VISTA DO
BATISTA
O trem mineiro
Está no ar campanha
para a escolha de símbolo que melhor identifique Minas Gerais, a
cultura, características e personalidade do mineiro, em consonância
com a dinâmica do turismo que se pretende desenvolver a partir do
projeto Estrada Real. Diversas propostas interessantes já se mostraram,
destacando-se entre elas a do trem. E creio que melhor imagem para
simbolizar Minas Gerais e o mineiro não se encontra além do bucólico
trem-de-ferro, que já serpenteou entre as alterosas, atravessou rios e
regatos, uniu cidades e povoados, transportou pessoas com sonhos a serem
realizados ou agentes de simples aventuras, fez incrementar negócios e
alimentou vidas. O trem desapareceu da rota dos negócios e como meio de
transporte entre as pequenas cidades; suas românticas estações, onde
primeiros encontros aconteceram na origem de casamentos duradouros, de
famílias e do crescimento de comunidades, fecharam-se ou desapareceram
de vez. Nelas não se mais encontram as pessoas no aguardo do parente
distante ou na hora do seu retorno e, no dia da festa do padroeiro
local, não mais se vê a banda de música a saudar ilustres visitantes,
presenças obrigatórias na missa solene das dez. Tudo se foi nas
volutas do tempo com o apagar da "maria-fumaça"!
Mas o trem ficou no
coração do mineiro, nas lembranças e até no linguajar, mesmo que
nunca tenha visto um trem de verdade. Por isso, quando o estômago
aperta, ele ainda apela para "comer um trem"; bebe pinga, joga
o resto no pé do balcão, e lasca a pergunta: tem um "trem pra
comer?" Diante de algo de se admirar, diz: é um "trem doido
dimais!". E quando satisfeito: "eta trem danado de bão,
sô!". Suas poucas posses são "uns trens" e, na alusão
às dificuldades, "é o trem da vida!". O "trem" lhe
cai como cisco no olho e aperta o peito nos desenganos amorosos! Talvez
por isso digam que mineiro não perde o trem. É porque o trem está
sempre com ele!
Nos tempos de
prestígio do trem, Cachoeira do Campo sempre mostrou frustração por
não ter seu perímetro urbano cortado por trilhos, assentada entre seu
casario e jabuticabeiras a estaçãozinha com o agente a postos. A
população sonhava com a estrada de ferro e, por isso, a presença de
grupos estranhos que lembrassem serviços de engenharia, em Cachoeira do
Campo, quase sempre o povo relacionava com construção de ferrovia.
Historicamente, essa frustração tinha raízes na construção do ramal
de Ouro Preto, inaugurado em 1º de janeiro de 1888. Até então nada
tirava das vilas, arraiais e povoados sua vida econômica. O transporte
por carro-de-bois ou sobre lombo de animais não tinha concorrente,
alcançava qualquer localidade, e, por esse meio se conduziam
mercadorias de qualquer natureza, por caminhos que não requeriam
manutenção mais cuidadosa. A ferrovia alterou a situação, pois ficou
mais cômodo e barato produzir mais próximo dela, que transportava a
longa distância em menos tempo. O progresso começou a chegar, mas não
se afastava muito do eixo criado pela estrada de ferro. Comunidades mais
afastadas começaram a sentir o isolamento. Também as pessoas passaram
a contar com meio mais rápido e higiênico, sem qualquer dependência
à habilidade no trato com animais, mas onde os trilhos não passavam, a
montaria não perdeu prestígio. Cachoeira do Campo, assim como outras
localidades, ficou em desvantagem em relação àquelas, até mesmo
menores, onde se ouvia o apito do trem. A estação mais próxima
(estação Dom Bosco) ficava a quatorze quilômetros de distância. O
declínio econômico do distrito teve início então com a inauguração
da ferrovia, agravou-se com a mudança da capital para Belo Horizonte e
se prolongou até que se rasgou a estrada, hoje convertida na Rodovia
dos Inconfidentes. Mesmo depois da inauguração da estrada (sem
pavimentação) em 1953, Cachoeira do Campo ainda acalentou o sonho do
trem como meio de transporte. Só desapareceu mesmo com a pavimentação
asfáltica em 1961, seguida do princípio do declínio da ferrovia. O
eixo criado em 1888 com a inauguração do ramal Ouro Preto da Estrada
de Ferro D. Pedro II (rebatizada como Estrada de Ferro Central do Brasil
pela República) deslocou-se então para a Rodovia dos Inconfidentes.
Por tudo isso, uma
vez que não podemos ter o trem de fato, que o tenhamos como símbolo!
Pena que este não possa levar, de vez, e para longe, tanta coisa que
nos incomoda!
nbatista@uai.com.br
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