"Tropa",
"Barbeiros" e música
O vínculo
político-partidário na origem das bandas de música cachoeirenses deu
a cada uma delas a cara da agremiação à qual estava ligada, de tal
forma que até hoje, mesmo não havendo a ligação de outrora, pessoas
mais velhas ainda se referem a um ou outro lado como partido de
"baixo" (União Social) ou partido de "cima"
(Euterpe Cachoeirense). A denominação de "baixo" e de
"cima" são apenas referências decorrentes da localização
de suas respectivas sedes sociais, na parte baixa e na parte alta da
localidade. Mas outros apelidos surgiram para as bandas e seus
partidários.
Os partidários da
Euterpe Cachoeirense, que carregavam o apelido de "cascudos"
por sua ligação com o Partido Conservador, adotaram o "Tropa de
Linha", ou simplesmente "Tropa", uma alusão à Guarda
Nacional da qual seu fundador era membro. Aos da União Social, também
conhecidos originalmente como "chimangos", em decorrência da
ligação com o Partido Liberal, os "cascudos" atribuíram o
apelido de "barbeiros"; alusão, não ao mau profissional do
volante, pois ainda não havia o automóvel, e nem ao profissional da
navalha, mas ao inseto fedorento e eventual transmissor da doença de
Chagas. Os "chimangos" assumiram tranqüilamente o pejorativo,
que até hoje é usado.
Quase a totalidade da
vida musical das bandas estava voltada para as festas religiosas, que
eram numerosas e grandiosas naquela época. Como o gênero executado por
elas só se aplica aos atos externos (procissões) e eventos profanos
paralelos, cada banda criou seu coro e orquestra para os atos religiosos
internos. Em outras localidades, a música interna era provida pelas
irmandades e ordens terceiras, mas, em Cachoeira do Campo, essa tarefa
foi confiada às duas bandas. Quando a banda era contratada para uma
festa da Igreja, automaticamente estava contratado o respectivo coro e
orquestra, composto de vozes, órgão, violinos, flauta, clarinetas,
trompetes, bombardino, contrabaixo de cordas ou tuba. A questão da
disputa que poderia surgir entre as duas corporações em torno da
participação nas muitas festas em Cachoeira do Campo, foi resolvida
pela paróquia que cuidou de distribuí-las igualmente entre as duas.
Dessa forma, durante o ano, cada banda tinha seus compromissos fixos com
preferência sobre quaisquer convites eventualmente surgidos para a
mesma. Do mesmo modo os meses foram divididos entre os dois coros. Se da
banda de música a mulher não participava, no coro e orquestra seu
papel era indispensável, tanto no grupo de vozes quanto no dos
instrumentos como os violinos e órgão. Esse era mais um diferencial
entre as bandas cachoeirenses e as demais. Como integrantes do coro e
orquestra, mulheres mantinham estreito vínculo com a banda, onde muitas
vezes perfilava o marido, o filho, o noivo ou namorado.
Nascidas numa época
em que eram inexistentes recursos mecânicos para a divulgação
musical, as duas bandas cachoeirenses souberam aproveitar o clima
favorável, atendendo a grande demanda por música que não se
dispensava em nenhum evento social, dentro e fora dos limites
municipais. De eventos os mais diversos as bandas participavam, porém
os de natureza religiosa sempre tiveram destaque no calendário das
duas. Note-se que a Igreja ainda era o mais importante agente
catalisador das artes.