Tromba d'água onde?
Muito mais que em anos
recentes, as chuvas têm caído com freqüência e persistência em nossa
região, e, felizmente, com menor intensidade que em outras, onde
tragédias se sucedem fazendo vítimas de afogamentos, soterramentos e
desabamentos, sobretudo entre os menos aquinhoados.
Não tenho dados
estatísticos, mas creio não ser anômalo o volume de chuvas desta
temporada e, sim, a escassez dos últimos anos. Talvez o longo ciclo
de escassez tenha feito às populações acostumar-se com o fato,
fazendo-as esquecer o comportamento regular e abundante em chuvas,
que fazia o roceiro saber o quê e quando fazer para plantar e
colher. Em tempo de chuva, chovia mesmo, persistente e mansa por
muitos dias consecutivos, ou de forma impetuosa, em poucos minutos,
porém com força suficiente para fazer grandes estragos. Das chuvas
manhosas, lembro-me que por muitos dias ao quintal, onde o mato
crescia sem peias, não se ia sem se molhar e barrear os pés. Da
janela ficava-se a ver bandos de pássaros na disputa pelo petisco em
forma de insetos, que pululavam sobre as copas das árvores.
Guarda-chuva, hoje quase descartável, naquele tempo durava até o
pano se desbotar e passava de pai para filho. Não se dispensavam as
galochas. E quem sabe o que eram galochas? Aquele sapato de
borracha, feito para calçar sobre o de couro, era muito útil para
não ter o calçado molhado e barreado, quando a maior parte das ruas
não tinha calçamento. Ao chegar a casa, tiravam-se as galochas e a
sujeira ficava lá fora.
Por serem de terra, as
estradas ficavam intransitáveis, deixando isoladas e desabastecidas
de gêneros alimentícios grande parte das cidades. Mais chuvosa que a
média de outras cidades e localizada em região montanhosa de solo
instável, Ouro Preto era das que mais sofriam isolamento, só não
sendo mais grave o seu caso porque ainda contava com a ferrovia. Até
início dos anos sessenta, durante períodos chuvosos era uma aventura
chegar por estrada de rodagem até Ouro Preto! Também não há mais
tempestades hoje de que outrora, ou mais intensas, notando-se
diferença apenas nas conseqüências, antes pequenas ou inexistentes
em decorrência de maior harmonia do homem com a natureza.
Ademais, a própria mídia,
ao empregar terminologia não condizente com a realidade, contribui
para a consolidação da crença de que as chuvas têm sido mais
violentas. Muitas localidades já teriam desaparecido, se verdade a
maior parte do noticiário. Tromba d’água, por exemplo, virou
sinônimo de chuva mais forte quando, na verdade, é fenômeno mais
raro do que se imagina. Na realidade, são dois os fenômenos
batizados de "tromba d’água". O mais conhecido, que acontece de
preferência em pontos mais altos, nas cabeceiras de rios, é
constituído por gigantesca massa de água que cai de uma só vez e
concentrada num ponto. Seu volume e força podem abrir grande cratera
no local, razão pela qual geraria tragédia de proporções
inimagináveis, se a ocorrência fosse dentro de aglomerado urbano.
Mas a verdadeira "tromba d’água" ocorre sobre lagos, rios e mais
comumente no mar. É o mesmo "tornado" que ocorre em terra firme:
gigantesco cone com vértice virado para baixo, formado por ventos
giratórios, que suga a água. Devido ao formato e sucção da água, o
fenômeno recebe o nome de tromba. A água sugada e levada pelos
ventos pode cair em forma de chuva em local distante. Seria a
explicação para fenômeno insólito, a "chuva de peixe", com vários
registros na relação de fatos inexplicáveis.