Há alguns anos
diríamos estar a despetalar novo bloco de folhinha, mas isso parece
coisa anterior a de mais de uma centúria, diante de tantas novidades
trazidas pela tecnologia. A folhinha tende a desaparecer, assim como
o cartão de natal e bem longe já ficou a consoada, caracterizada por
grande variedade de doces caseiros preparados por equipes nas
grandes cozinhas, ainda de terra batida, às vezes, arrematadas em
tijolos requeimados. Ainda não haviam convertido o Natal e o Ano
Novo em comilança e bebedeira, assim como presenteados eram tão
somente as crianças pelo mítico Papai Noel, também não configurado
no ridículo velhinho vestido de vermelho. Janeiro era como os demais
meses, sem sobressaltos, ponteado apenas por saudade dos momentos de
mais calor humano, propiciado pela reunião da família e parentela
nas festas natalinas.
Depois de vários
meses de apelo da indústria e do comércio em torno do consumo,
mediante "facilidades" que seriam consideradas próprias da ilha da
fantasia, pela maioria da população, se esta não fosse tão
vulnerável às artimanhas da sedução, houve a farra do consumo no
último fim de ano. Curada a ressaca dos excessos à mesa, sobra a
ressaca financeira, de mais difícil cura, porque entre o que se
ganha e o que se tem a pagar há grande abismo, mormente porque ao
início de cada ano sobram obrigações a serem cumpridas pelo cidadão.
IPTU, IPVA, despesas escolares, anuidade das entidades classistas e
outras obrigações vêm para agravar a situação do consumidor afoito
que, no dizer dos nossos avós, não calcula bem a proporção "entre a
água e o fubá", "dá passo maior que as pernas", "avança sobre a lua
como se ela fosse queijo". No outro lado do balcão, a situação não é
muito diferente, quando ilusão se semeia! A expectativa de receber
se transforma em frustração com a inadimplência oriunda da venda
ambiciosa, sem sustentação, e a compra idem, idem! Por isso, janeiro
é o mês do ranger de dentes! E isso se repete a cada ano, não
obstantes promessas de ajustes no comportamento de consumo.
Subindo para o
patamar coletivo, incluindo-se aí o poder público, a transição no
calendário tem sido feita em meio a tragédias humanas decorrentes do
conflito do homem com a natureza. É por ocasião das chuvas que esta
última reage, por meio dos alagamentos, deslizamentos e
desabamentos, às agressões de que é vítima do homem com pretensões a
domá-la, mediante construções em locais inadequados, desmatamento,
alterações de cursos d’água, e lançamento nestes de toda sorte de
material incompatível com sua natureza de "sangue" da Terra. Fala-se
em tragédias naturais ou da natureza, mas a expressão é imprópria
porque tudo que ocorre na natureza é normal, é próprio dela, a ela é
inerente. Na natureza não há tragédia! As tragédias são puramente
humanas, em decorrência de imprudência e de pretensões à
superioridade sobre a natureza! Mas o homem não aprende; continua a
transgredir, uns contra a natureza e outros também contra o social,
deixando de orientar, prevenir, punir e de aplicar recursos
destinados às correções dos erros e assistência às vítimas. A cada
transição no calendário tudo se repete, variando, às vezes, de
local, porém com poucas diferenças nas manifestações e resultados
danosos à pessoa humana; mas se danos há para a pessoa é porque
houve transgressão e imprudência, ainda que no passado remoto, por
parte de terceiros!
Em Ouro Preto, a
partir do crescimento populacional observado no início dos anos
sessenta, morros que circundam a cidade respondem à ocupação
desordenada do solo, feita sob vistas grossas e estímulo de
políticos irresponsáveis. A vida tranquila, livre de enchentes e
alagamentos por ocasião das chuvas, deu lugar a apreensões voltadas
à possibilidade de deslizamento de rochas e de grandes pedras, sem
qualquer ação preventiva do poder público, voltado unicamente para
picuinhas quanto à necessária preservação do patrimônio histórico. O
cidadão, com certo exagero, está sujeito a absurdas injunções para a
troca de uma telha em sua residência, enquanto a cidade, no seu
todo, segue à mercê das consequências dos desafios feitos ao
imponderável. O Iphan e agora o correspondente em nível municipal
não dão a mínima para a questão. Preocupam-se com os anéis e deixam
que se percam os dedos e as mãos!A cidade é sede de uma das mais
antigas escolas de engenharia, que inclui curso de geologia. Dessa
importante presença seria natural entrelaçamento da UfOP com a PMOP
e IPHAN que possibilitasse o monitoramento preventivo e contínuo, em
torno do comportamento do solo, especialmente nos morros
circundantes. O que se ouve e se vê, entretanto, é o choro sobre o
leite derramado!
Minimizada,
inicialmente, como queda de barranco nos meios de comunicação,
avalanche como essa sobre o terminal rodoviário não é fenômeno
imprevisível, entre especialistas no assunto. E também não é o
primeiro de tais proporções no mesmo local. Há cinquenta e dois anos
(1960), outro ocorreu ao lado, também à noite, diferente apenas na
ausência de vítima e por ser em período seco. Arrastou denso
candeial e formou do outro lado da Rua Padre Rolim o aterro onde,
hoje, se assenta posto de combustíveis. Abaixo daquela montanha, na
mesma direção, a colina, onde se assenta a igreja de São José,
desliza vagarosamente; e o fenômeno se denuncia por grande fissura
no adro. Sabe-se do fato, mas se finge não saber. Outra avalanche,
quando acontecer, será fatalidade!