PONTO DE VISTA DO BATISTA

Turismo malandrino

Causou furor a notícia de que vereadores brasileiros se deslocaram até a Argentina para, ali, participar de um dos muitos congressos promovidos por entidade que os congrega. De acordo com o noticiário, o congresso acabou sendo cancelado por falta de quorum e os participantes aproveitaram o tempo, assim disponível, para fazer turismo na capital portenha e adjacências.

Da forma como foi divulgada a matreirice, até parece ter sido fato inusitado, quando, na verdade, é quase prática padrão o turismo a prevalecer sobre o que deveria ser trabalho, nessas ocasiões. Novidade mesmo foi a reação popular, revelando que nem tudo continua a ser praia para políticos, pois indícios de novo comportamento se manifestam contra o despudor no uso do dinheiro público. A malandragem desses congressos é velha e o povo sempre soube disso, mas andava a reboque sem tugir nem mugir. Como não há mal que dure para sempre, as coisas começam a mudar, ainda que timidamente, mas logo deverá tomar corpo, à medida que se altera o perfil de cidadania da população.

Nem é preciso queimar fosfato para se chegar à conclusão que o tal congresso em Buenos Aires foi apenas suposto, ou seja, armação bem urdida para justificar a viagem. A evento de tal nível, cuja realização demanda uma série de serviços e exige preparo com relativa antecedência, não falta quorum por acaso, eventualmente ou como imprevisto. Por isso, não tem sentido, a menos que tenha sido previamente combinado para que a maioria gazeteasse, hipótese plausível, considerada a qualidade dos políticos que temos. Do outro lado da história desses eventos o que também não falta é picaretagem na realização, alimentada pelo dinheiro fácil saído dos cofres públicos.

O fato, longe de ser isolado, é a culminância de outros do mesmo gênero que, em algum momento da história desses eventos, tiveram início com pequena falta, não corrigida e punida, ensejando então sua repetição e ampliação aos níveis hoje conhecidos. Quando, na maioria dos municípios, o cargo de vereador ainda não era remunerado, considerado então sacrifício cívico do cidadão que, eleito pelo povo, se dedicava à realização de seus ideais políticos, nem sequer se pensava na promoção de tais reuniões. Atualmente, vereador, até de município amparado pelo FPM (Fundo de Participação dos Municípios), recebe remuneração, ainda que ruas continuem esburacadas por falta de verba; remuneração enriquecida com benesses a exemplo desse tipo de turismo, legalizado sob a forma de congressos e reuniões similares. Histórias de antigos congressos dessa natureza, ainda modestos, realizados em território nacional, são bastante conhecidas, pois participantes revelavam sem nenhum pudor, o que se considerava símbolo do poder que tinham sobre a arraia miúda. Na maioria das vezes realizados em cidades litorâneas, destacadas por seus atrativos turísticos, tais eventos são mais oportunidades do ócio prazeroso, que inclui passeios, praias, noitadas e outras mordomias fora do alcance do povo.

Segundo relato de antigos participantes, alguns ainda compareciam a parte das reuniões de trabalho, mas outros se davam ao trabalho de apenas assinar presença. O restante do tempo era gasto em entretenimento. Hoje desligados do mundo político, muitos criticam o comportamento dos atuais esbanjadores do dinheiro público, quando na verdade eles abriram o caminho para o atual estado de coisas. O imaginado congresso de Buenos Aires foi o coroamento de processo pilantra iniciado há algum tempo por vereadores de então, melhorado e ampliado por seus sucessores, até chegar aos privilegiados de nível internacional. Até onde ainda chegarão? Caberia ao povo decidir...

nbatista@uai.com.br

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