Lançado às urtigas pelo
preconceito
Em conversa com amigo
leitor desta coluna, ouvi observação de que sua maior frustração foi
nunca ter se ajeitado com a redação e, no seu tempo de estudante,
isso era o que mais pesava contra seu aproveitamento no aprendizado.
Nas provas - dizia ele - se a redação tivesse maior pontuação,
fatalmente sua nota estaria entre as piores, porque não conseguia
encadear idéias por meio da escrita. E ele imaginava como teria sido
fácil para mim, passar pelo aprendizado da língua, tendo facilidades
na coordenação do verbo sobre o papel. Admito que não foi difícil,
mas em outras áreas, para ele mais fáceis, eu tinha minhas
dificuldades, o que no fundo quer dizer que nenhum de nós é melhor
que todos em tudo. Cada um se desenvolve melhor em determinada área,
e esse destaque não é motivo para alguém se achar melhor que todos,
assim como indivíduo em situação oposta não deve se sentir
humilhado. Pessoa destituída de conhecimento ou habilidade numa área
pode ser largamente compensada em outra.
Mas, mesmo com a vantagem
sobre os demais na redação, ou melhor, por causa disso, colhi
espinhos, "privilégio" não só meu, porque outros também padeceram ou
padecem do mesmo mal. O que deveria nos colocar à frente, por vezes
lança-nos para trás! Lembro-me que, por diversas ocasiões, fiquei
sob suspeita de ter apresentado "tarefa" preparada por terceiros. E
numa dessas a coisa foi bem grave.
Estava no D. Bosco a
cursar o ginasial e tinha como professor de Latim um clérigo (ainda
não padre) meio ranzinza. Sem qualquer explicação plausível, ele e
eu não amarrávamos a égua no mesmo poste! Era uma antipatia mútua,
gratuita; o oposto do amor à primeira vista! De repente, o professor
de Português, com o qual me dava bem e de quem recebia estímulos,
adoeceu e foi transferido de Cachoeira. Para substituí-lo foi
designado justamente o professor Raimundo (não confundir com o da
"escolinha" da televisão), da cadeira de Latim. À primeira
informação sobre a substituição reagi: tô frito! O homem deu a
primeira aula, mas nada de especial aconteceu. Na segunda, ele deu
como tarefa, para entregar dali a quinze dias, redação de texto
sobre determinado tema.
Exultei de contentamento.
Estava ali a oportunidade de eu conquistar a simpatia do professor
Raimundo. Se redação em classe, sem qualquer aviso prévio, me
destacava entre os colegas, em prazo de quinze dias faria muito
melhor. Dediquei-me à tarefa proposta.. Esmerei-me. Redigi, corrigi,
emendei, aparei arestas, enxuguei o texto. No dia combinado, a
"tarefa" (assim era denominado o trabalho escolar no D. Bosco) foi
recolhida, e a aula seguinte o professor dedicou à entrega e crítica
dos textos com as respectivas notas. Comentou cada um dos textos,
cerca de trinta, começando da maior nota. Quando ele anunciou o
primeiro lugar, uma ducha de água fria desabou sobre meu ego. Não
acreditava. No meu juízo, o texto vencedor não era essas coisas.
Veio o segundo e... veio o terceiro. Dali para frente não tive
dúvidas; algo errado acontecia. Imediatamente antes de comentar o
último texto – e só faltava o meu – o professor Raimundo se
empertigou na cátedra, limpou a garganta, percorreu toda a classe
com olhar grave, e iniciou virulento sermão condenatório. Começou
dizendo que não se dirigia ao autor do texto, mas ao autor de uma
fraude; que um aluno se julgava esperto para enganar o professor,
mas este não cairia naquela farsa, e coisa e tal, etc., etc. Falou,
falou até quase ficar rouco. Só não disse palavrões porque não
ficava bem na boca de um quase padre, em classe. Ao fim ele me
chamou à frente e me entregou a folha toda riscada de vermelho. Ouvi
tudo sem poder reagir.
Posteriormente, fui ao
gabinete do padre conselheiro (encarregado da disciplina) e lhe
expliquei o acontecido. Muito rígido e exigente, o padre Newton
Ambrósio era também homem justo. Ele me conhecia. Por isso, o
professor Raimundo foi chamado e instruído a corrigir minha nota na
caderneta. Contudo, ficou me devendo a retratação em classe!