Como
característica humana, largamente repudiada por ser considerada
sério defeito de personalidade, até que a vaidade, em doses mínimas,
pode ser o estímulo a mover o indivíduo na consecução de seus
propósitos mais nobres. Pode-se dizer que, para as realizações
destituídas do interesse puramente pessoal, ela é tempero que, no
alimento, aguça o paladar e desperta o prazer, desde que não se
sobreponha ao sabor do próprio alimento. Fruto do orgulho às vezes
escondido nas profundezas do ser, é verdade, a pequena vaidade não
deixa de ser mola propulsora de vida mais afinada com os interesses
coletivos. Não fosse por ela, oxalá tivesse evoluído a humanidade,
talvez ainda estivesse escondida nas cavernas!
Mal nasce o bebê,
uma coisa molenga e mal acabada, toda a família e alguns mais
achegados vêem nele semelhanças com este ou aquele membro, embora
todo recém-nascido, durante alguns dias, não pareça com ninguém fora
do círculo da sua faixa etária. Por enquanto, a vaidade ainda não
aflorou no bebê, mas nos circunstantes mais próximos, ela fala mais
alto e sem pejo de "descobrir" nele, a cada momento, características
próprias daquele grupo familiar que, a cada novo rebento, vai
garantindo sua continuidade entre os semelhantes. Mas, não tarda
muito e a nova criaturinha mostra os primeiros sinais de sua
personalidade. Depois de tanto bilu-bilu e macaqueação à sua volta,
ele aprende a chamar a atenção dos à sua volta e já ri ao ser
correspondido: descobre que pode ser o centro das atenções naquele
espaço todo seu e não mais pára de provocar a convergência de
olhares sobre si. A partir daí, a vaidade pessoal é suplantada pela
modéstia, e assim se mantém ao longo da vida até a longevidade, ou
toma corpo, podendo atingir proporções da megalomania; em casos mais
graves, ainda na fase da infância.
A modéstia,
normalmente na proporção direta da inteligência do indivíduo, é a
mesma no topo da escada social ou ao nível do chão, não se sentindo
o indivíduo diminuído ao descer de postos de destaque. Para ele nada
muda em relação ao seu meio e assume a nova realidade sem qualquer
repulsa. Nada muda porque, para pessoas desse nível mental, postos
de destaque são apenas meios usados na prestação de serviços, não
lhes acrescentando nada mais além de responsabilidade. O mesmo não
ocorre com pessoas cuja vaidade se sobressai como marca da
personalidade, pois fazem da posição alcançada um fim em si mesmo,
um ornato resplandescente ao ego inflado. Elas não se conformam com
a perda de posição e consideram humilhante função abaixo do nível em
que estiveram por algum tempo. Os holofotes não mais estão focados
sobre si, mas vivem como se estivessem.
Por isso, ao invés de assumir a
realidade, apresentam-se com seus antigos cargos precedidos