PONTO DE VISTA DO BATISTA

Valores invertidos

Imaginem consumidor no caixa do supermercado a carregar, por exemplo, cinco pacotes de arroz. É claro que o funcionário calcula o preço dos cinco pacotes e faz a cobrança, ao que o consumidor responde: - só pago por um. – Então o senhor vai devolver quatro pacotes? – Não, eu levo os cinco. – Hein? não estou entendendo, senhor! – Entendendo você está; só não aceita o que digo. E continuo a afirmar que vou levar os cinco pacotes, pagando por apenas um. É meu direito – complementa o comprador.

A polêmica se estabelece e, a essa altura, forma-se grande fila diante daquele caixa, com sinais de divisão do público em duas torcidas (ainda não organizadas). Sem deixar o lugar na fila, cada qual apura melhor o ouvido para saber o que se passa e como terminará aquela contenda. O mundo está cheio de pessoas respeitáveis com desejos, inconfessáveis isoladamente e acalentados no íntimo, mas que explodem ao primeiro sinal de iniciativa alheia. São covardes e oportunistas ao mesmo tempo, prontos para dar o primeiro bote na caça abatida por terceiros!

O gerente se aproxima do consumidor em destaque: - o senhor, naturalmente, está brincando. – Não, não estou – E o que move o senhor nesse sentido? – indaga o gerente. – Ora, estou comprando os cinco pacotes de uma só vez.

Diante da explicação, alguém na fila exclama: - já entendi aonde quer chegar esse cara. Em parte, ele tem razão – O quê? Você acha isso justo? – É a reação de seu vizinho à frente, que já havido definido a estranha atitude como sinal de alguma debilidade mental. – Não digo que seja justo, porém seu raciocínio segue certa lógica. - Lógica? - Indaga o outro. – Sim, você não ouviu o caso do "atirador do shopping" que teve pena reduzida pelo Tribunal de Justiça? Os desembargadores entendem que, tendo o criminoso cometido os três assassinatos num só momento, não se deve imputar-lhe pena considerando cada homicídio separadamente. A pena foi reduzida à máxima por um homicídio apenas, acrescida de dezenove anos para quatro tentativas, ou seja, pelas quatro pessoas que escaparam feridas.

A cena descrita no supermercado é fictícia e serve apenas para demonstrar como é falha a lei. Se duas ou mais unidades de qualquer bem ou mercadoria não podem ser reduzidas a apenas uma para efeito de transação comercial, como querer que várias vidas humanas sejam reduzidas apenas uma, ao apenar autor que as eliminou de forma voluntária, fria e cruel? É a inversão de valores que chega às mais altas esferas da estrutura político-administrativa do país, depois de o crime banalizado no vale-tudo pelo ter e poder. Na avaliação de recursos do universo humano chega-se ao fundo do poço pois "coisa" vale mais que gente, "algo" tem mais importância que "alguém", "que" se sobrepõe a "quem" e "nada" frustra mais que "ninguém".

Como reduzir a apenas um crime, a interrupção de três vidas com três histórias diferentes, por sua vez interagentes com um sem número de outras histórias pessoais? Pessoa não se resume a corpo animado, porque isso robô é e com bastante eficiência. Não tombaram três desses bonecos, por acaso dispostos à frente do atirador, substituíveis a qualquer momento, nas funções às que se destinavam. São três personalidades alijadas de seus corpos, três atores desvinculados do teatro da vida, só porque um terceiro assim o quis, em detrimento não só das vontades das vítimas, mas, sobretudo do que elas representavam dentro da sociedade humana.

nbatista@uai.com.br

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