VAMOS AO TEATRO
- Ô Maria! Vamos ao teatro
hoje à noite?
- Heim? Vem a resposta
lá da cozinha, misturada ao ruído da colher nas panelas. Ruído que
mulher adora fazer e que denota zelo pelo lar doce lar. Mostra que
sem ela, o desajeitado consorte e analfabeto de pai, mãe e parteira
nas artes culinárias estaria frito. Iría por certo comer sanduíche
de trailer ou tira-gosto em boteco. Ou na melhor das hipóteses, se
fosse esperto o bastante, agarraria o telefone e pediria comida
chinesa ou pizza no tal "delíveri".
- Ao teatro, repete o
homem distraído com o teclado do computador. Seu mais novo
passatempo é essa maquininha dos diabos que gruda na gente mais que
visgo. Está com um olho no monitor e outro no teclado. Não é nenhum
digitador experiente. É somente mais um "catilógrafo" que
está fascinado com a era da informática, por isso presta mais
atenção a máquina do que na resposta da esposa. Parece que pergunta
só por perguntar. Pergunta para não ter aborrecimentos mais tarde
com as reclamações tipo "por que você não me chamou pra ir?".
- Ao teatro Maria!
Está tendo espetáculo em Ouro Preto.
- Tendo o que?
Balbucia a mulher, ainda fazendo os ruídos metálicos de quem não tem
dó nem piedade dos ouvidos alheios ou das panelas de teflon. Ah,
maravilhosa invenção esse tal de teflon. Principalmente quando o
combinado entre o casal é: "eu cozinho e você lava a louça".
Lavar panela de teflon é que nem empurrar bêbado ladeira abaixo. É
só por debaixo d'água e fingir que passou esponja com detergente.
Esposa nenhuma percebe a preguiça do descarado que não lavou como
deveria lavar e fica feliz da vida vendo o maridinho solidário nas
lidas domesticas.
- Teatro no Festival de
Inverno, continua o homem que tem consigo duvida sobre o real
nome do evento. Seria Festival de Inverno ou Festival de Inferno? As
ultimas edições do referido acontecimento o faziam lembrar de
quando, a conselho de seu pai, ia à casa da luz vermelha, para ser
desmamado. Até o som das juke-box, o cheiro do perfume barato
exalado pela mulher que pedia a chave do quarto quatorze, o barulho
das bolas caindo na caçapa vinham a sua mente ao ouvir "Festival de
Inverno". Seja como for, ainda continua dividido entre a resposta da
mulher e o teclado. Onde será que puseram o C cedilha nessa coisa
estúpida? Quer finalizar a mensagem de e-mail com saudação cordial.
Tinha idealizado "um grande abraço", mas não consegue
encontrar o tal do C cedilha. Já está quase escrevendo "abrasso"
para acabar logo com a agonia da procura. E a esposa que não
responde? Será que não está entendendo suas perguntas ou está se
fingindo de porta? Talvez o maldito ruído da colher nas panelas seja
o grande culpado pela comunicação precária entre os dois. Se
impacienta, mas ao mesmo tempo, sendo mais racional se acalma,
sabendo que sem barulho de panela vai ter que apelar para o "delíveri"
ou para os tira-gostos no bar do Edson Queixada e do seu irmão
Pedro, ali mesmo em Passagem de Mariana.
Farto em procurar o C
cedilha, com vergonha em ser tomado por um reles analfabeto,
finaliza a mensagem mandando um "grande beijo". Depois que
clica no enviar e vê a correspondência atravessar centenas de
quilômetros em frações de segundos, percebe pequeno erro na saudação
de despedida. A mensagem era para seu chefe, Diretor-presidente do
Clube dos Machões em Belo Horizonte. Mandar beijo pra homem já é
esquisito, pra chefe e presidente de clube é pior ainda.
Ligeiramente irritado com o pequeno lapso e com a falta de resposta,
abandona a maquininha demoníaca e com voz de "galo dono de
terreiro" quase grita:
- Como é que é? Nós
vamos ou não vamos a essa merda de teatro?
Aí, um pouco receosa com a
irritação marital, para de fazer o tal ruído e é toda ouvidos.
- Qual é a peça meu bem?
Denunciando assim que estava mesmo, durante esse tempo todo, dando
uma de porta.
Feliz com a atenção ele enche
a boca e imitando o Cid Moreira, pronuncia:
- O Palhaço Nu!
- Palhaço o que benhê?
- Palhaço Nu, palhaço
pelado, palhaço sem roupa! Entendeu agora?
E ela entre cara de risinho e
raiva por ter escutado grito, responde na mais clássica vingança
feminina:
- Vou não! Palhaço
nu eu já vejo toda noite aqui em casa!
Pedro Paulo Pinto Jr. *