Por todo o mundo repercute
a constatação de que a espécie humana tem alongado a longevidade
média em cada país e tende a acelerar esse processo, de modo que,
para as novas gerações, o alcance dos cem anos vai ser tão fácil,
quanto para nós outros foi superar os sessenta. Felizmente, muito ao
contrário do que ainda se acredita entre os menos informados,
vive-se mais hoje do que no tempo dos nossos avós.
É muito comum ouvir dizer
"esta geração não viverá tanto quanto antigamente...", não se
sabendo em que se baseia essa assertiva, se não por julgamento das
aparências deixadas em retratos pintados ou fotografias de pessoas
há muito desaparecidas do nosso meio. A verdade é que, no passado
não mui distante do agora, o aspecto de pessoa aos cinqüenta anos
era bem mais decadente do que se mostram, hoje, os que contam
setenta ou oitenta anos, especialmente entre os homens. Além do
desgaste físico, maior no passado, contribuíam para envelhecer a
aparência a indumentária formal, sisuda, e o costume da barba longa.
Quem vê, por exemplo, o auto-retrato do gênio Leonardo da Vinci
imagina ter ele vivido perto dos cem anos. Entretanto, não passou
dos sessenta e sete. O imperador Pedro II não passava dos sessenta e
seis anos, quando morreu, dois anos depois de destronado e
escorraçado do Brasil pelos republicanos. Os cabelos brancos e a
volumosa barba também branca dão-lhe aspecto de octogenário nas
fotos e retratos a óleo. E assim se observa nos registros de imagem
de tantos outros, aparentemente longevos, que partiram antes de
ingressar no período hoje convencionado "terceira idade".
Quanto ao dia-a-dia das
pessoas, a ausência de saneamento básico e higiene pessoal precária
muito contribuíam para o abreviamento da vida, que então contava com
poucos recursos oferecidos pela então incipiente medicina. Por isso,
a tuberculose só deixou de ser doença fatal em meados do século
passado, graças ao avanço das ciências médicas, tanto na prevenção
quanto na cura de doenças; além de muita informação repassada às
populações à medida que se descobriam meios de combater a terrível
doença. Até então, milhões deixaram este mundo antes de alcançar os
trinta anos, só entre as vítimas da tuberculose. E, no passado,
morria-se de qualquer coisa. Morria-se de causa desconhecida, assim
como, hoje, de bala perdida!
Superados tantos
obstáculos à maior longevidade, o problema para muitos é como se
situar na sociedade humana, presa à convenção de que "velho",
aposentado, é traste inútil a ser recolhido ao quartinho de despejo,
para ser descartado em breve. Se existe discriminação por parte da
sociedade, um pouco da culpa debita-se ao próprio discriminado, que
um dia fez parte da turma discriminadora e agora confirma, a dizer
que "velhice é castigo", "não quer viver muito" e, pior,
abandonando-se ao ócio pernicioso, quando muito alento lhe resta,
até para se doar ao próximo. O "velho" também pode e deve produzir,
colaborar, prestar assistência, orientar, divertir, ensinar e também
aprender. Se suas condições físicas não lhe permitem antigas
atividades, que procure outras mais adequadas. Sempre há algo a
fazer de acordo com sua capacidade O importante é que se mantenha em
evidência como indivíduo, impondo-se pela experiência e não se
deixando levar por truculências no curso da vida. Pode até pendurar
o chapéu do emprego formal, com cartão de ponto e chefe bestunto,
mas entregar-se à ociosidade é dar asas à turma da oposição.
E nada de considerar
benefícios legais (atendimento prioritário, transporte gratuito,
meio ingresso para espetáculos, etc.) como concessão por piedade,
assistencialismo ou esmola. É direito adquirido na vivência, no
trabalho, na construção do mundo herdado pelas novas gerações; é
prêmio pela persistência na busca do bem-estar comum e contribuição
à causa da sociedade humana.
Antes de reclamar contra
limitações próprias da idade avançada, gozando ainda de
oportunidades que a vida proporciona, é bom lembrar da imensa legião
impedida de avançar sobre o ponto por nós ultrapassado. A velhice é
dádiva a ser degustada devagar, ao contrário da juventude muitas
vezes engolida sem sentir-lhe o sabor.