Vinagre em embalagem de
vinho
Meios de comunicação não
faltam para que cidadãos se situem num mundo cada vez mais
globalizado, justamente como conseqüência da expansão daqueles.
Desde a invenção do telefone, em 1876, que revolucionou a maneira
como a notícia se propagava - até então só por meio da escrita - o
mundo não parou de conhecer outros meios, que vieram com o cinema, o
rádio, a televisão, a gravação em disco e em fita. Mas, não se
compara o que houve nesse passado mais recente com a expansão
ocorrida nos últimos anos representada pelo surgimento da internet e
do telefone celular. A um custo mínimo, estabelece-se contato com
qualquer parte do mundo de maneira praticamente instantânea.
Observa-se, entretanto que, na contramão desse desenvolvimento, a
linguagem vem perdendo qualidade e, não poucas vezes, gera equívocos
na interpretação.
No hipotético texto a
seguir, diversos erros foram "plantados" para exemplificar o mau uso
de termos e expressões, não só no linguajar popular e
pronunciamentos públicos, mas em documentos formais, informativos,
educativos, e mesmo oficiais.
"O ladrão, cínico e
desaforado, pousou sobre o muro e os
fotógrafos fizeram a festa, garantindo assim a notícia quente para
as apreciadas páginas policiais. Aproveitando os clarões dos
"flashes", um policial militar apanhou a faca caída junto ao muro e
a passou ao seu superior através do
companheiro mais próximo, enquanto dizia ao ferido: aguarde um pouco
que a ambulância já vai vir. Outro
policial, que estava um pouco afastado do grupo, aproxima-se do
tenente e informa sobre estranho mal cheiro
na extremidade do muro há uns
cinqüenta metros dali. Logo em seguida, acotovelando-se na
aglomeração, uma jovem se aproxima do ferido e, sem se importar com
seu estado, desabafa: - eu lhe odeio
por andar com esse tipo de gente - ao mesmo tempo que ergue os olhos
para o marginal em cima do muro. É a irmã do rapaz ferido, vítima de
agressão por parte do comparsa ao se desentenderem durante a prática
de um assalto".
Logo no início do texto, o
leitor é surpreendido com a informação de que o ladrão é voador,
pois é dito que ele pousou, mas não é nada disso; o hipotético autor
queria apenas dizer que ele (o ladrão) posou ou fez pose para se
fotografar. Mais à frente, o repasse da faca pelo policial denuncia
o abuso no emprego da expressão que tem o sentido de atravessar, o
que não se deu no relato, pois então teríamos a morte do policial
intermediário. Poucos são os casos em que cabe a expressão "através
de" com o mesmo sentido de "por meio de" ou "por intermédio de".
Quem não conhece os desvios em que se mete a linguagem também não
entenderia o que se quis dizer com "a ambulância já vai vir". Vai é
do verbo ir (indica afastamento) e vir indica o contrário, ou seja,
aproximação. Afinal, a ambulância vai ou vem? Que sanfona danada!
Entre o mau cheiro, mal escrito, e o ponto onde se aglomeram as
pessoas o "há" (do verbo haver) ficou perdido, mas o "a"
(preposição), que em seu lugar devia figurar, sumiu, ninguém sabe
ninguém viu. Amor e ódio são duas faces da mesma moeda. E deve ser
por isso que cometem o mesmo erro pronominal com ambos os
sentimentos. Depois dos grunhidos, roncos e outros ruídos
classificados como música, o que mais faz "doer" os ouvidos são os
muitos "eu lhe amo" e "eu lhe odeio" nas novelas; o "lhe" (indireto)
em lugar do "o" ou "a" (direto).
Assim, "a gente" (com a
devida licença presidencial) caminha, concomitantemente, para a
excelência nos meios e a mediocridade na comunicação. Registre-se
que "a gente sabe", "a gente faz" "a gente isso" "a gente aquilo" é
um estágio evolutivo do "nóis sabe", "nóis faiz", e coisa e tal...