PONTO DE VISTA DO BATISTA

 Violência sob visão bandida

Mantido o comércio de armas de fogo no Brasil, todo cidadão continua com o direito de adquiri-la e tê-la em casa para sua defesa e de sua família, mesmo sabendo dos riscos que isso implica. Direito tem, mas o poder de ter arma é que constitui problema, uma vez que, além do custo da arma em si no comercio regular, as exigências impostas pela lei alija a maior parte da população desse mercado. Para a maioria da população o direito de ter arma é como o de circular livremente por todo o país. Poder circular pode, ter poder para circular é que são elas. Entretanto, para o cidadão o importante é saber que tem o direito, mesmo que a realidade desse direito esteja longe de seu alcance. Esse foi o verdadeiro alcance do resultado da consulta popular.

Sabe-se que a violência é resultante de uma série de fatores sociais, figurando na base a desestrutura familiar complementada pela precariedade da educação, e por isso, não será contida por decreto ou consulta popular. Ela só pode ser contida com fortalecimento do arcabouço da sociedade, leis mais justas e governos respeitáveis que as cumpram e façam cumprir. A política de desarmamento praticada pelo governo peca pelo primarismo de se concentrar na violência eventual, ocasionada por brigas domésticas, atritos de rua, rixas crônicas, como se não existisse o banditismo, tão organizado a ponto de substituir o estado, onde este se omite, e capaz de subverter o conceito de violência. Assim como muitas outras palavras, cujos conceitos se alteraram ao longo do tempo, manipuladas à vontade dos espertos, violência, gradativamente passa a ser tão somente agressão a tiro, que resulta em sangue, seguida ou não de morte. Dentro de algum tempo, persistindo a manipulação no mesmo rumo, violência só quando houver morte. Vejam relatos de vítimas de seqüestro. Quase sempre dizem que não sofreram maus-tratos ou violência. E o seqüestro em si, o que é? A própria imprensa dá sua contribuição ao relatar casos de invasão de propriedades por grupos organizados, dizendo ter sido pacífica a ação, quando feita sem agressão física. E o que é a invasão perante a lei?

Em gravação, que circula livremente, entrevista de suposto traficante a suposta jornalista, dá uma idéia do grau de inversão de valores e do poder de influência dos bandidos sobre comunidades à margem da ação governamental. Trato o caso dentro da suposição, pois "jornalista" e "traficante" não se identificam plenamente, e podem ex-partidários do "sim" argumentar tratar-se de gravação forjada e coisa e tal, o que não descarto. Mas, o diálogo feito por telefone bate com a lógica do mundo do crime e tem tudo para ser real. Em linguagem característica da marginalidade, permeada de gíria do meio, o "traficante" começa por declarar não ter, a princípio, entendido e que confundiu "referendo" com "reverendo". Quando entendeu, passou a defender o "sim" e que seu grupo até se valeu de técnicas de marketing em campanha na comunidade do morro. Perguntado por que defendia o "sim", respondeu com maior cara-de-pau que quando a população não tiver armas à mão, a violência acabará. E complementou dizendo que quem devia ter arma era somente bandido e polícia. Dentro da sua lógica, o "traficante" reivindica para o seu meio o direito de considerar atividades criminosas como "trabalho" à semelhança de qualquer outro, a ponto de considerar mortes em atividades criminosas como acidentes do mesmo. Considerando a violência como simples troca de tiro, o personagem da entrevista afirma que ela desapareceria, estando a população desarmada.

Resumindo, a bocada estaria mais fácil para os bandidos. E parece ser também isso que o governo quer!

nbatista@uai.com.br

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