PONTO DE VISTA DO BATISTA

Violência não violenta

Se espaço houvesse, semana passada, esta coluna teria se estendido algo mais para abordar o caso de, pelo menos, outra palavra também a escorregar para desvio de seu conceito original.

Entre as primeiras preocupações do indivíduo cônscio de suas responsabilidades perante a sociedade uma está voltada para a violência, cuja incidência não mais se restringe às grandes aglomerações urbanas, manifestando-se também onde antes só havia espectadores do mal que afligia ao longe. A segurança, natural e gerada pela confiança mútua dentro de pequenos grupos, cedeu lugar à sugerida ou imposta pela força legal, mas nem sempre a cumprir seu papel a contento, seja por falta de preparo, aparato, ou de sustento na própria lei, mais afeita à proteção da marginalidade. Segundo dicionários, um dos conceitos de violência é o emprego de força bruta, intimidação ou constrangimento moral contra alguém, com propósitos diversos, entre os quais o de se impor ou obter vantagens.

Percebe-se, entretanto, que fontes e veículos de informação vêm amenizando o conceito de violência, uns com o intuito de mascarar a realidade, outros por descuido na análise do que lhe caem às mãos, a tal ponto que um dia ação violenta se resumirá ao homicídio simplesmente. Sabe-se que, nos bastidores oficiais, teóricos sugerem a não divulgação de parte das ocorrências de violência com base na tese, defendida pelos mesmos, de que a informação de fatos violentos estimularia a prática de outros. Está claro que tal medida tende a se cumprir somente em relação a pequenos veículos, dependentes de fontes oficiais, porque a grande imprensa corre atrás dos fatos in loco. Mas, nem esta escapa do maquiavelismo embutido nas estatísticas saídas dos gabinetes, ou jornais não concordariam com a informação de que a violência está a diminuir, porque caiu o número de homicídios.

Aí está uma grande mentira que só o leitor muito atento percebe. Homicídio é violência, mas há que observar que violência não é só homicídio! Em relatos como os de seqüestro relâmpago, já se tornou comum a exclamação "felizmente não houve violência", quando a vítima não sofre agressão física. Mas, e o seqüestro o que é? O que é a arma apontada para a vítima? E os gritos, as ofensas, a tortura psicológica, são carinhos? A perda de bens materiais para marginais é prêmio? Se morre a vítima, em decorrência de susto ou aflição diante da violência, e isso acontece mais do que se imagina, o número representativo não aparece nas estatísticas dos atingidos por ações violentas.

Ao contrário do anunciado, a violência cresce e alcança todas as classes sociais, com autores e vítimas. E ela não fica só nisso, porque depois do golpe direto, a violência continua a atingir a vítima sob a forma da impunidade do autor e o descaso de toda a estrutura, que defende os direitos humanos dos bandidos, em detrimento do sofrimento da primeira.

É preciso que a sociedade reaja e não aceite a escamoteação da verdade. Esconder a verdade do povo é comportamento similar ao do banditismo que, em seus domínios, garante a segurança da população, para fazer-lhe crer que a marginalidade é mais humana e politicamente correta. Como prova do poder que exercem, os bandidos ainda fazem crer, por meios facilmente imagináveis, que qualquer vítima, inocente ou não, tombada durante confrontos em morros e favelas, foi alvejada pela polícia.

A realidade é muito mais cruel do que pintam jornais impressos e televisivos. Portanto, anunciar que a violência se reduziu é conversa mole pra boi dormir, é tapar o sol com a peneira, tentativa de esconder o fracasso e a incompetência.

nbatista@uai.com.br

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