PONTO DE VISTA DO BATISTA

Visão curta sobre o futuro

O alto burocrata da máquina governamental norte-americana, responsável pelo registro da patente de cada invenção apresentada, pede demissão ao secretário de Estado do Comércio e, diante do questionamento do seu gesto argumenta: "não terei mais o que fazer, pois tudo já foi inventado; ficar para quê?" Isso aconteceu em 1875.

O que excedia em escrúpulos, que não permitiam receber dos contribuintes de impostos somente para esquentar os fundilhos numa cadeira do estado, faltava-lhe em imaginação, que faz o homem antever e registrar, seja por meio da literatura como fez Júlio Verne ou por esboços de projetos no caso de Leonardo da Vinci, o que poderá o homem fazer séculos mais tarde. Honesto como desejaríamos fossem todos os burocratas, mas, tão pobre de visão sobre o futuro, que a história não lhe cita o nome!

Em 1875, a captura mecânica de imagens se limitava à fotografia que ainda engatinhava, quinze anos antes do surgimento do primeiro cinematógrafo e, conseqüentemente, do cinema. Um ano depois da demissão do chefe do Departamento de Registro de Patentes, era inventado por Alexandre Grahm Bell o telefone, e, mais um ano, Thomaz Edson fazia a primeira gravação sonora, dois passos iniciais para a revolução na área da comunicação. O mesmo Thomaz Edson abriu novas perspectivas para a iluminação artificial ao testar, com sucesso, a primeira lâmpada elétrica, em 1879. E a revolução na área do transporte veio em 1885 com a construção do primeiro automóvel (três rodas, sem capota, e velocidade de 13 Km/h) pelo alemão Carl Benz. Interessante observar que as grandes invenções se sucederam imediatamente após a demissão do funcionário, como se em protesto contra sua atitude, e a contrariar círculos acadêmicos para os quais a química e a física estavam totalmente classificadas, concluídas e sem mistérios a revelar. Em razão disso, os que falavam em excursões ao fundo dos oceanos, balões dirigíveis ou máquinas voadoras, eram ridicularizados e considerados loucos. Mas enquanto os medalhões se ocupavam em tagarelar, os verdadeiros obreiros se mantinham ocupados em seus laboratórios-oficinas, para que o mundo chegasse ao fim do século dezenove com cabedal suficiente, em conhecimento, para promover a decolagem do desenvolvimento no século seguinte. E a decolagem do mais pesado que o ar, vencendo imensos desafios proporcionados por aparências de impossibilidades referendadas pelos ditos doutos, bem simboliza o início daquele processo. Persistência e confiança em sim próprios fizeram laboriosos pesquisadores e inventores deixar de lado a conclusão absoluta de que o vôo do besouro é um absurdo, para se concentrar no fato de que, mesmo assim, ele, o besouro, voa!

Do primitivo automóvel aos bólidos que hoje entulham ruas e rodovias transcorreram-se cento e vinte anos; o homem já pisou a lua e envia artefatos na preparação de jornadas nas estrelas. De navio ou em lombo de animal, em meses, pequenas distâncias eram vencidas pela informação; muito longe dos poucos segundos gastos para uma volta ao globo, em voz, texto e imagem, por intermédio da rede de computadores que se contam aos milhões em todo o mundo. E a rede não pára de crescer. Ninguém desconhece o fato.

Mas, em 1977, alguém dizia: "não há nenhuma razão para que qualquer pessoa tenha um computador em casa". Ao contrário do personagem de 1875, o pessimista de agora não era um burocrata, mas o presidente de uma das gigantes da indústria da computação.

nbatista@uai.com.br

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