Repercutiu na
imprensa o resultado de pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística-IBGE. De acordo com os resultados
obtidos, o brasileiro se alimenta mal; não na quantidade, mas quanto
aos valores nutricionais do que se come.
De certa forma
já se sabia disso. A bom observador não escapa o desvio em que se
meteram hábitos alimentares nacionais, com o início do processo de
industrialização e o ingresso da mulher no mercado de trabalho. Aos
mais afoitos (e afoitas) esclareço não se tratar de crítica ou
barreira à participação da mulher em qualquer atividade e, muito
menos, querer limitá-la aos afazeres domésticos. A saída da mulher
para o trabalho fora de casa é apenas um dos fatores que
contribuíram para a quebra da qualidade nos hábitos alimentares
brasileiros, mas, pode-se dizer que foi o puxador de fila. Nas
grandes cidades, onde vícios alimentares são mais evidentes, a
manutenção da família tornada pesada para uma só pessoa, conjugada
com a explosão industrial, levou as mulheres para as fábricas. Em
seus lugares ficavam, às vezes, meninas na pré-adolescência, a
cuidar dos afazeres domésticos, entre os quais, o preparo da
alimentação para os irmãos pequenos. Sem o requerido tempo para o
aprendizado no preparo de alimentos junto à mãe, essas meninas
ficaram limitadas ao preparo do mínimo suficiente para não se morrer
de fome. E elas tiveram efeito multiplicador, no momento de seu
ingresso no mercado de trabalho, deixando em casa a irmã
imediatamente mais moça como responsável pela cozinha.
Em seguida,
vieram produtos e mais produtos industrializados, uns para facilitar
e apressar a colocação da comida na mesa e, outros, para desviar a
infância dela (da mesa). Na mesa se colocaram inúmeros itens
industrializados, com destaque para carnes e massas, enquanto, a
criançada passava a fazer a festa com o consumo de antialimentos,
muito bem definidos como "porcarias" por críticos desse tipo de
produto, com o qual supermercados passaram a ganhar rios de
dinheiro. A essa altura, casas e mais casas de comida rápida (fast
food para os norte-americanos) se instalaram em pontos
estratégicos, completando-se o processo de subversão dos hábitos
alimentares, iniciado com a alegada falta de tempo, em casa, para o
preparo da alimentação.
A tendência
nacional para macaquear, sempre o pior de culturas estranhas, deu
sua contribuição. Quando deveria ser copiada dos setentriões o gosto
pela organização, pela aplicação da lei, pela punibilidade, pelo
empreendedorismo em larga escala e burocratizado ao mínimo, copia-se
o mau gosto em tudo, incluindo-se hábitos alimentares já denunciados
entre eles próprios como sério problema de saúde pública. A
alimentação é também questão de educação; educação do paladar de
acordo com as necessidades nutricionais, que deve se iniciar na
transição entre o aleitamento e a ingestão de alimento sólido. Cabe
aos pais essa orientação, dando bom exemplo na opção por alimento
bem dosado em calorias, vegetais frescos (verduras, legumes e
frutas), evitando antes a saturação do paladar com guloseimas em
excesso e fora de hora. Infelizmente, comodismo e a funesta política
do laissez-faire, segundo a qual a educação infantil deve ser
mais solta, sem interferências e obrigações interpostas por adultos,
muito têm colaborado para agravar a questão da alimentação, tão
desequilibrada entre os que não padecem da fome.
Não somente o
dito até agora pode ser apontado como causa do desvio alimentar,
estando de permeio até preconceitos como o relacionado com o ato de
cozinhar, considerado demeritório por muitos, o que por si só revela
falta de visão mais ampla sobre a vida. Ao contrário, o ato de
cozinhar está entre as mais nobres atividades humanas, pois se
relaciona com a alimentação, indispensável à manutenção do organismo
em perfeitas condições de garantir a energia vital. É, portanto,
atividade que deveria ser considerada a principal, bem valorizada e
salva de preconceitos, tanto por parte de mulheres, que a veem como
função menor, quanto da parte de homens que a têm como trabalho
exclusivamente feminino.
O apetite é o
alerta quanto à a necessidade de ingestão de alimento, e, o prazer
auferido pelo paladar é apenas o meio mediante o qual a natureza
compensa nosso atendimento àquela necessidade. Mas, antes há também
que estar atento à correspondência entre os valores nutricionais do
que se come e as reais necessidades do organismo.