Tirem o cavalo da chuva
aposentados e pensionistas, que pensam ter conseguido virar o jogo a
seu favor com a aprovação do aumento, na Câmara Federal, para os
acima do piso salarial, além da extinção do chamado fator
previdenciário. É preciso que se lembrem, estarmos em ano eleitoral,
deputados dos dois níveis e senadores já mobilizados para a
reeleição. E, para eles, não é momento de contrariar grande parcela
do eleitorado, justamente a que já deu seu suor e sangue para a
construção deste país e, nas camadas mais pobres, é a que garante a
sobrevivência dos não inclusos na cadeia produtiva. Para não perder
o voto, políticos vendem até a alma! O assunto ainda passa pelo
Senado, mas mesmo que este acompanhe o voto da Câmara dos Deputados,
pela frente ainda há o veto presidencial que, certamente, porá fim
ao sonho, pressionado pela equipe econômica.
Quando do lado de fora do
balcão governamental, todo político defende e apoia reivindicações
populares, diferentemente do que faz ao passar para o lado de
dentro. Na qualidade de sindicalista e candidato a presidente, por
cinco vezes, o atual mandatário e seu partido defendiam os
"beneficiários" do INSS, prometendo-lhes mundos e fundos, caso
fossem eleitos. Por cansaço imposto ao eleitorado, acabou sendo
eleito, mas no que toca à sorte dos desprotegidos, após trinta ou
trinta e cincos de trabalho e contribuição, ele nada fez.
Ao longo do tempo o
governo meteu a mão nos cofres da Previdência para tapar rombos em
outros setores, enquanto descuidava da fiscalização e arrecadação,
que caiu também devido à sonegação desenfreada no meio empresarial,
incluindo-se estatais e prefeituras. Empresas, grandes devedoras da
Previdência, desapareceram e deram lugar a outras; golpe de mágica,
para não dizer safadeza, para escapar ao ineficiente fisco
previdenciário! Diante da primeira notícia sobre grande fraude
contra o INSS, foi dito nesta coluna que se apertasse o cerco muita
lama correria. E, de fato, golpes piores vieram à tona
posteriormente, revelando um mundo bandido formado por escroques
aliados, de dentro e de fora da Previdência. Até hoje não se sabe se
algo foi feito para recuperar, ou se foram recuperados os recursos
surrupiados do patrimônio do trabalhador brasileiro. Ao mesmo tempo,
a política assistencial, ou simplesmente do agrado
político-eleitoreiro, se imiscuiu na área previdenciária,
concedendo-se aposentadorias em troca de menos da metade de
contribuições exigidas do trabalhador formal, quando não a concessão
pura e simples, sem a contrapartida contributiva. O governo fez
gracinhas com chapéu alheio, ou seja, dos contribuintes e
"beneficiários" do INSS.
Para compensar tudo isso,
o trabalhador perdeu o direito ao abono permanência (pé na cova) ao
atingir trinta anos de contribuição; na hora de se aposentar, passou
a ter o redutor de "benefício", chamado fator previdenciário; o
aposentado na ativa perdeu o pecúlio formado por suas contribuições
e passou a sofrer achatamento do seu "benefício". Aposentado ainda
trabalhador formal é penalizado duas vezes: tem reduzido seu
"benefício" e contribui para a Previdência, a fundo perdido, sem
qualquer retorno. E quando o "benefício" cai no piso salarial, daí
não mais levanta. Mais ainda o aposentado, à medida que avança em
idade, é forçado ao trabalho.
Isso é triste, injusto e
desumano, mas ainda não é o pior. Sim, ainda não é o pior, porque há
trabalhadores comprovadamente doentes, muitos a padecer de males
adquiridos por força do trabalho, afastados por recomendação médica,
mas não reconhecida sua situação pela perícia do INSS; trabalhadores
incapacitados para o exercício do ofício ou profissão, por sofrerem
mutilação de membro superior ou inferior, também são liberados para
o mesmo trabalho, quando o ideal seria sua adequação e treinamento
em outra função, havendo condições para isso. E não se vislumbra
situação melhor para os que dependem, ou dependerão, da Previdência
Social na velhice.
Entretanto, havendo
vontade política, solução pode ser encontrada a médio e longo prazo.
Discute-se, acaloradamente, a distribuição dos royalties do petróleo
da camada pé-sal, estados e municípios produtores de um lado,
agarrados ao osso; não produtores, do outro lado, ansiosos por uma
lasquinha; e a União montada na parte do leão. Para cobrir o alegado
rombo da Previdência, bastaria que, mediante lei, parte dos
royalties do pré-sal, que caberia à União, fosse repassada para a
Previdência Social. Bastaria vontade política!