Prezada Kátia:

Dom Pedro II esteve em Cachoeira do Campo nos dias 2 e 3 de abril de 1881, conforme relato dele próprio em sua cadernete de viagem, publicado pelo Museu Imperial de Petrópolis. Ele faz registro detalhado de sua visita á cidade. Relato detalhado faz também Lúcio Fernandes Campos, no seu livro "Cachoeira do Campo", que conta histórias de Cachoeira (possuo este livro e mais a publicação do Museu Imperial. Augusto de Lima Júnior, que residiu em Cachoeira, também traz notícia desta visita de dom Pedro II. De Cachoeira ele foi para Glaura (então Santo Antônio dla Casa Branca", onde também dormiu uma noite, seguindo para a ponte de Ana de Sá, Acuruí, Rio Acima, Nova Lima, Sabará, Santa Luzia e outras localidades neste antigo percurso da Estrada Real.
Seu pai, dom Pedro I, também esteve em Cachoeira, em 1822, em histórica e importante viagem a Minas, que o ajudou a proclamar a Independência, neste mesmo ano. Voltou a Cachoeira em 1830, quando foi mal recebido, o que o motivou a realizar, um ano depois, a abdicação. É o próprio dom Pedro II que relata: "Fui orar à igreja que tem dois altares laterais que muito me agradaram por seus lavores de talha. Visitei a coudelaria. O arrendatário, fulano de Castro, não quis responder-me claramente sobre a extensão das terras e as cabeças de gado por causa da pequena renda que paga e mesmo assim sem tê-lo feito pontualmente. A terra da coudelaria é só do meu uso-fruto mas a fazenda do Buraco, igualmente arrendada ao mesmo, é minha propriedade. Pensarei em aproveitá-la para colonos. Voltei à casa onde vi uma cadeia de forma antiga onde meu pai se assentou e um Murta de 88 anos que lhe cuidava dos animais de viagem". Ao repórter do Jornal do Comércio, que integrava a comitiva, declarou Manoel de \neves Murta ter sido companheiro de caçada de dom Pedro I numa das duas viagens em que este visitou Minas, em 1822 e 1830.
Esta cadeira estava na Capela do Colégio Dom Bosco e parece que o prefeito Angelo Oswaldo pediu-a ao salesianos junto com outras peças históricas. Ao que me consta, não foi atendido até hoje, o que seria outro desaforo destes salesianos.
O que constatamos, com estes textos, é que a doação que dom Pedro II fez ao Governo de Minas só poderia ter ocorrido após 1881. Outros registros dizem que a coudelaria fracassou e a propriedade entrou em decadência, levando dom Pedro II, pouco antes da Proclamação da República, em 1889 (ano em que dom Pedro II esteve em Ouro Preto, vindo de trem, para inaugurar a extensão da linha férrea que vinha de Miguel Burnier, antigo São Julião, posteriormente chamada Estrada de Ferro Dom Pedro II, que passava por Ouro Preto, Mariana e alcançava Ponte Nova) a doar a propriedade ao Governo de Minas, que ali instalou uma escola agrícola,a Colônia Cesário Alvim. Mas a 22 de maio de 1893, o então governador Afonso Pena doou a propriedade à Ordem Salesiana, não só o antigo quartel como o antigo palácio de verão, onde hoje está o Retiro das Rosas, gerido pelas Irmãs Filhas de N.S. Maria Auxiliadora.
A doação ao Governo de Minas ocorreu, portanto, entre os anos de 1881 e 1889. O que é preciso é encontrar este ato de doação, se realmente existiu formalmente e quais as suas condições. Já temos o instrumento de doação do Governo do Estado, que nada amarra quanto à destinação de uso para fins educacionais.
Pessoalmente, acho que os melhores argumentos são de natureza histórica e cultural. O prédio, os terrenos, as cachoeiras, integram a História de Minas, o prédio é um exemplar magnífico da edificação colonial luso-brasileira setecentista, possui história e referencial humano e social e poderia ter destinação cultural ou educacional nos nossos dias.

Mauro Werkema

NOTA DO EDITOR: Kátia Maria Nunes Campos e Mauro Werkema são integrantes do movimento de resistência à desvirtuação do Dom Bosco

 
 

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