PONTO DE VISTA DO BATISTA

O xixi é nosso!

Reconheço que, nas últimas semanas, tenho sido favorecido pela sorte no que toca a assuntos com os quais preencher este espaço, já por mim ocupado em oitocentas edições deste semanário. Na semana passada tinha dois temas a escolher e me surgiu o terceiro, que acabou por furar a fila, transformar-se em texto e sair publicado. Para esta semana, o texto já estava pronto, acabado e revisado, quando novamente o mesmo jornal dá outra dica, que nenhum membro da tribo dos escrevedores pode deixar de lado, podendo ser considerada como prato cheio para críticos e quejandos.

A NASA (Agência Espacial Norte-Americana) informava haver criado engenhoca destinada a fazer reciclagem da urina dos astronautas. Daqui em diante, astronauta vai ter que beber o próprio xixi, transformado em água, é claro! A mesma fonte (sem trocadilhos) informa que a água é de boa qualidade. E acrescento: segundo o paladar de quem criou a coca-cola, sabor original.

Eureka! Coincidentemente, Arquimedes estava mergulhado na água, a tomar banho, quando assim gritou (achei) por haver descoberto a lei da densidade dos corpos, no reino da Física. A descoberta lhe possibilitava resolver questão premente e de interesse do rei. Por isso, dizem, ele saiu correndo, peladão, a gritar eureka, eureka, eureka (achei, achei, achei).

Eureka! Está solucionada a questão da falta d’água; pura, bem entendido, porque poluída há muita! Tecnicamente, em nível laboratorial, está provada a possibilidade, e, mais alguns anos e recursos investidos, poderá vir a realidade em escala economicamente viável, convertida em serviço público.

Todavia, vejo a questão sob o ângulo obtuso da política. Uma tremenda discussão se levantará: a quem caberá a exploração do serviço? Municípios se manifestarão capazes de controlar e explorar o serviço, desde que implantado o equipamento às expensas do Estado ou da União; em nível estadual a COPASA (Minas) argumentará a seu favor, pois já transforma quase esgoto em água potável. Como será a coleta ou captação? Haverá os defensores do sistema de mictórios públicos de uso obrigatório, os da captação por domicílio em rede paralela à de esgotos e os do sistema misto, que deverá associar os dois primeiros; tudo canalizado para a Estação de Tratamento do Xixi – ETX. Enquanto prosseguirem essas discussões, por trás dos bastidores haverá defensores da criação da Xixi Brasileiro S/A - Xixibrás ou do Departamento Nacional do Xixi-Denax. Conhecidos políticos deverão encarar a questão como a salvação da lavoura do Nordeste. Do setor privado, indústrias cervejeiras se mobilizarão para tirar proveito da situação naquela região. Se políticos exploram a seca, elas levarão água, por meio de mega-festivais de cerveja e chope, tudo realizado em infra-estrutura condizente: imensos "cervejódromos", dotados de requintados mictórios. Detalhe importante é que o usuário só sairá dali depois de constatado o esvaziamento completo da bexiga. É o que se chamará "política de distribuição de água", similar à da distribuição de renda. O Nordeste se beneficiará da pujança estabelecida no sul, dirão políticos!

A indústria de louças sanitárias também se apressará na apresentação de modelos de mictórios públicos, a serem instalados em bairros, vilas e brocotós; tudo pela transformação do precioso líquido!

Contudo, haverá questões de difícil solução na preocupação de debatedores. O alto montante de investimentos exigido sugerirá controle rígido no aproveitamento do sistema, mas como obrigar o povo a usá-lo e evitar o desperdício? E já que se falou em desperdício, haverá quem proponha a taxação da urina desviada para exames clínicos, ficando a cargo dos laboratórios o seu recolhimento. E mais discussão se levantará, pois, se caberá ao laboratório o recolhimento, o pagamento ficará por conta do usuário, cuja conta virá aumentada. E os planos de saúde advertirão que, se instituída a taxa, tais exames serão autorizados somente se o usuário se comprometer a pagá-la. Em todas as rodas o consenso é de que haverá risco de exame de urina virar caso de polícia.

Ao fim de tudo, operada por sistema gerador de cabides de emprego e de oportunidades para mais corrupção, a extensa rede de mictórios públicos será a única vantagem para o povo. Assim, é melhor ele continuar a se desapertar no muro mesmo!

nbatista@uai.com.br

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