PONTO DE VISTA DO BATISTA

Zombaria diplomada

Não poucas vezes, quem se ocupa de produção de textos se descobre no mato sem cachorro ou, pior, sem o que caçar, faltando-lhe assunto que valha o trabalho de quem escreve e de quem lê. E quando isso acontece, descobrir um tema é como tentativa de desembaraçar corda, sem ter a ponta como ponto de partida. Quanto mais forçada a solução, mais longe esta fica. Felizmente, o contrário também acontece. É o caso de haver até mais de um tema à disposição e, na hora de por mãos à massa, digo, ao teclado, surge tema diverso e mais chamativo.

Para esta semana, estava este escriba entre dois temas de reserva quando, ao ter à mão jornal do dia, deu de cara com o insólito logo na página de capa. Neste país de valores invertidos, vê-se quase tudo de natureza estranha na área do Direito, mas, bandido processar a própria vítima é algo de arrepiar, dando o que pensar sobre o que nos aguarda, mas estava lá a chamada "Assaltante processa assaltado". E o texto a confirmava. Pequeno comerciante, proprietário de padaria, porque batera no bandido durante assalto ao seu estabelecimento, estava sendo processado. Depois de sofrer dez assaltos em sete anos de estabelecido, tendo o décimo acontecido quatro dias antes, o comerciante chegou à padaria e encontrou a funcionária do caixa (sua irmã) de mãos para o alto e o ladrão a recolher o pouco dinheiro que havia. Cansado de trabalhar e perder para a bandidagem, ele mandou normas de segurança às cucuias e pulou sobre o bandido, iniciando então verdadeira sessão de pancadaria, engrossada pela solidariedade posta em prática por testemunhas. Dominado e "amarrotado", o laulau foi levado pela polícia e na cadeia ainda se encontra.

Pelo menos por enquanto, daquele ladrão o comerciante estaria livre e não esperava ser sua vítima em outro tipo de ação. O incrível aconteceu, pois de dentro da cadeia, onde tal tipo de gente tem tido tempo e suporte para fazer o diabo cá fora, o bandido abriu caminho para prejudicar sua vítima, desta vez por meio da Justiça: entrou com queixa crime contra o comerciante com a pretensão de processá-lo por danos morais, alegando lesões corporais, além de ter se sentido humilhado, insultado e rebaixado com a tunda que levou.

O fato de o assaltante tentar virar o jogo a seu favor não é nenhuma surpresa, pois isso tem acontecido com muita freqüência no dia-a-dia, dentro do crescente processo de inversão de valores. Pessoas afrontam o senso comum, tentam subverter regras na sociedade e ainda apelam para o que consideram seus direitos, valendo-se da fragilidade das leis e do sentimento de abandono que essas mesmas leis formam no cidadão. O que mais chama atenção e causa indignação é o fato de o bandido ter conseguido advogado que aceitasse sua causa e a defendesse junto ao Judiciário. No que toca ao item "Aconselhar o cliente a não ingressar em aventura judicial" do seu código de ética, esse profissional com trinta e um anos de carreira foi omisso e avançou na desfaçatez, zombando da Justiça, ultrajando companheiros de profissão. É o mínimo que ele fez contra o código de ética do advogado, contra a Justiça e contra a sociedade. Só faltou um juiz, dos que se envolvem com o lado torto, para que a vítima do assalto tivesse que indenizar o ladrão, frustrado na consumação do seu intento com a coça que levou.

Felizmente o absurdo foi considerado como tal, em primeira instância, mas à aberração ainda cabe recurso e, ao que tudo indica, o advogado recorrerá. O bandido, biltre, larápio, pilantra, desavergonhado, deveria agradecer a Deus, porque vítima de outra índole não teria chamado a polícia e, sim, mandado-o para os quintos do inferno! E a fazer-lhe companhia, na cadeia, deveria estar seu parceiro, o advogado.

Este velho escriba sabe dos riscos de também ser processado pelo bandido, por assim tê-lo chamado publicamente, uma vez que "tamo na mão de calango"!

nbatista@uai.com.br

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